01 · PRIMEIROS CONCEITOS
Primeiros conceitos
Dez perguntas para compreender a arbitragem, com exemplos e referências para aprofundar.
O que é arbitragem?
A arbitragem é um meio de resolução de litígios em que a decisão é confiada a um tribunal arbitral, composto por um árbitro ou por vários árbitros.
O tribunal ouve as partes, aprecia os argumentos e a prova e decide o conflito através de uma sentença arbitral. Na arbitragem voluntária, o acordo das partes constitui o ponto de partida; a lei e as regras aplicáveis delimitam os poderes do tribunal e as garantias do procedimento.
A instituição arbitral, quando existe, administra o processo nos termos do seu regulamento. Essa função distingue-se da função dos árbitros, a quem cabe decidir o litígio.
Exemplo hipotético
Duas empresas discordam sobre o pagamento de equipamentos. Existindo uma convenção válida que abranja esse conflito, podem submetê-lo a árbitros, que decidirão se o pagamento é devido e em que medida.
Em Moçambique: A Lei n.º 11/99 admite a submissão de litígios à arbitragem mediante convenção expressa e distingue o tribunal arbitral do tribunal judicial.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 3, alíneas a), b) e c), 4 e 17
Em que difere a arbitragem de um processo judicial?
No processo judicial, decide um tribunal do Estado. Na arbitragem, decide um tribunal arbitral constituído segundo a convenção e a lei.
O tribunal judicial integra o sistema de justiça do Estado. O tribunal arbitral é constituído para exercer a competência que resulta da convenção e do regime aplicável. As partes podem participar na escolha dos árbitros e em diversas escolhas processuais.
Os dois sistemas relacionam-se: os tribunais judiciais podem prestar apoio à arbitragem, apreciar pedidos de anulação e intervir na execução. Arbitragem não significa ausência de controlo judicial.
Exemplo hipotético
As partes escolhem a arbitragem para decidir um incumprimento contratual. Se for necessária execução forçada da sentença, pode ser indispensável recorrer ao tribunal judicial competente.
Em Moçambique: A lei moçambicana prevê situações de intervenção judicial e regula a força executiva e a execução da decisão arbitral.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 9, 12, 43 e 49
Qual é a diferença entre arbitragem, mediação e conciliação?
Na arbitragem, o tribunal decide. Na mediação e na conciliação, a solução procurada é um acordo entre as partes, com auxílio de um terceiro.
Na mediação e na conciliação, o terceiro ajuda a construir uma solução, mas não impõe uma sentença. O acordo só existe se as partes o aceitarem. Na arbitragem, cabe aos árbitros decidir os pedidos que lhes foram submetidos, mesmo que uma parte discorde do resultado.
A distinção entre mediação e conciliação varia entre sistemas jurídicos. Na lei moçambicana, a mediação procura uma solução satisfatória para ambas as partes; a conciliação destaca a facilitação da comunicação para que cheguem a acordo. Nos textos da Comissão das Nações Unidas para o Direito Comercial Internacional (UNCITRAL), os dois termos são usados como equivalentes.
Exemplo hipotético
Num conflito sobre atrasos de uma obra, o conciliador pode ajudar a restabelecer o diálogo. O mediador pode trabalhar com as partes numa solução que combine um novo calendário e uma compensação. Em ambos os casos, as partes precisam de aceitar o acordo. Se o conflito seguir para arbitragem, os árbitros decidirão os pedidos.
Em Moçambique: O artigo 60 da Lei n.º 11/99 descreve estas funções, e o artigo 61 contempla propostas do mediador. O artigo 2 permite procurar soluções consensuais antes, durante ou depois de um processo judicial ou arbitral. Esta explicação segue a terminologia da lei moçambicana, sem a apresentar como uma distinção universal.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 2 e 60–66
- UNCITRAL — Lei Modelo sobre Mediação Comercial Internacional (2018) · Terminologia: mediação e conciliação
É necessário o acordo das partes para recorrer à arbitragem?
Na arbitragem voluntária, é necessário um acordo que permita submeter o litígio a árbitros. Esse acordo pode ser anterior ou posterior ao nascimento do conflito.
Uma cláusula compromissória prevê litígios que possam surgir de uma relação jurídica. Um compromisso arbitral refere-se a um litígio já existente. A validade, a forma e o alcance desse acordo precisam de ser verificados.
Se já existe uma convenção válida que abranja o conflito, a vontade posterior de uma parte de evitar a arbitragem não equivale, por si só, à revogação do acordo. Há também regimes especiais que devem ser examinados separadamente.
Exemplo hipotético
Um contrato de fornecimento inclui uma cláusula arbitral. Quando surge uma divergência sobre a qualidade dos bens, a análise começa por verificar se a cláusula é válida e abrange essa divergência, e não por presumir que é necessário um novo acordo.
Em Moçambique: Os artigos 4 e 10 tratam da convenção e dos seus requisitos; o artigo 12 regula a relação entre a convenção e a acção judicial.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 4, 10 e 12; regimes especiais: artigo 5, n.º 3
Todos os litígios podem ser resolvidos por arbitragem?
Não. A possibilidade de submeter um litígio a arbitragem chama-se arbitrabilidade e depende do regime jurídico aplicável.
Há duas perguntas a separar: a lei permite que os árbitros decidam esta matéria? E estas pessoas podem celebrar a convenção? Uma cláusula assinada não elimina as limitações legais.
Certos assuntos são reservados aos tribunais judiciais; outros seguem regimes especiais. Também há direitos de que o titular não pode dispor livremente ou sobre os quais não pode celebrar uma transacção, isto é, um acordo que resolva o conflito mediante concessões.
Exemplo hipotético
Duas empresas podem escolher a arbitragem para decidir uma dívida contratual, se estiverem reunidas as condições legais. Não podem, por acordo, dar aos árbitros o poder de condenar alguém numa pena criminal.
Em Moçambique: O artigo 5 estabelece o âmbito e as exclusões. O artigo 6 contém regras sobre a legitimidade das partes, incluindo entidades públicas.
Fontes desta resposta
A arbitragem é sempre mais rápida?
A arbitragem pode permitir um procedimento célere, mas a rapidez não é garantida pelo simples facto de se escolherem árbitros.
A duração depende da complexidade do conflito, da escolha dos árbitros, da disponibilidade dos intervenientes e da prova necessária. Um calendário ajustado ao caso pode evitar actos desnecessários.
Uma cobrança simples e um conflito sobre defeitos numa grande obra não exigem o mesmo trabalho. Em ambos, a rapidez deve ser conciliada com o contraditório: cada parte precisa de ter oportunidade de apresentar a sua posição e responder à outra.
Exemplo hipotético
Uma cobrança baseada em poucos documentos pode justificar um calendário simples. Um litígio sobre defeitos numa grande obra pode exigir perícia, testemunhas e audiências, mesmo sendo arbitral.
Em Moçambique: A lei inclui a celeridade entre os princípios e regula o prazo para a decisão. Esses elementos devem ser lidos em conjunto com as garantias processuais.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigo 2, n.º 2, alíneas e), f) e h), e artigo 35
- UNCITRAL — Notas sobre a Organização de Processos Arbitrais (2016 e nota adicional de 2023) · Organização do procedimento e calendário
A arbitragem é sempre mais barata?
Não necessariamente. O custo deve ser avaliado no conjunto do processo e em relação ao valor e à importância do litígio.
Podem existir honorários de árbitros, encargos administrativos da instituição, honorários de advogados e despesas com perícias, traduções, deslocações e prova. Algumas dessas despesas variam com a complexidade, a duração e o número de árbitros.
A comparação deve considerar também os custos indirectos de uma disputa prolongada. Uma estimativa baseada num regulamento de custas não corresponde automaticamente ao custo total nem ao valor definitivo que a instituição cobrará.
Exemplo hipotético
Numa pequena cobrança, três árbitros e uma perícia extensa podem tornar o procedimento desproporcionado. Num contrato de elevado valor, a especialização e uma tramitação adequada podem justificar encargos maiores.
Em Moçambique: Para arbitragens administradas pelo CACM, o Regulamento de Custas é uma referência inicial. A calculadora do portal apresenta apenas uma estimativa; os valores concretos devem ser obtidos junto do Centro.
Fontes desta resposta
- CACM — Regulamento de Custas · Encargos administrativos, honorários e despesas
- UNCITRAL — Notas sobre a Organização de Processos Arbitrais (2016 e nota adicional de 2023) · Custas e depósitos
A arbitragem é sempre confidencial?
Não existe uma resposta universal. É preciso verificar a lei, as regras aplicáveis, os acordos das partes e as obrigações de divulgação.
Uma audiência privada é uma audiência sem acesso do público. A confidencialidade vai além disso: respeita ao uso e à divulgação de informações, documentos e decisões. Convém saber quem pode aceder ao processo e em que situações a divulgação é permitida ou exigida.
Na arbitragem de investimento, a transparência pode permitir acesso público a documentos e audiências, protegendo informação sensível. Por isso, as expectativas de reserva de uma arbitragem comercial não se aplicam necessariamente a um litígio entre investidor e Estado.
Exemplo hipotético
Uma arbitragem pode tratar de segredos comerciais cuja divulgação exige cuidado. Se uma parte precisar de recorrer a um tribunal judicial para executar a sentença, terá de analisar que documentos apresentar e como proteger informações sensíveis no regime aplicável.
Em Moçambique: A Lei n.º 11/99 consagra privacidade e confidencialidade e contém regras específicas sobre divulgação da sentença e referência para investigação e estudos.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigo 2, n.º 2, alínea c), e artigo 42, n.ºs 5 e 6
- UNCITRAL — Regras de Transparência em Arbitragem de Investimento · Âmbito de aplicação e salvaguardas de confidencialidade
A decisão arbitral é obrigatória e pode ser executada?
A sentença arbitral decide o litígio com efeitos obrigatórios no quadro do regime aplicável. Não é uma simples recomendação.
O cumprimento pode ser voluntário. Se não o for, a parte interessada pode ter de promover a execução nos termos legais. A sentença pode também estar sujeita a meios específicos de impugnação.
Reconhecimento, execução e anulação têm funções diferentes. No plano internacional, o regime depende do tipo de sentença, dos Estados envolvidos e dos instrumentos aplicáveis; não basta transportar as regras domésticas para todos os casos.
Exemplo hipotético
O tribunal arbitral condena uma empresa a pagar uma quantia. Se ela não pagar, a parte vencedora pode procurar a execução judicial, apresentando os documentos exigidos e observando os meios de defesa previstos na lei.
Em Moçambique: O artigo 43 liga a força executiva ao depósito nos termos do artigo 42; o artigo 44 prevê a anulação e os artigos 49 a 51 regulam a execução. Estas condições devem ser verificadas no caso concreto.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 42 a 44 e 49 a 51
Como avaliar se a arbitragem é adequada a um contrato?
A escolha deve partir das necessidades do contrato e do conflito possível, ponderando admissibilidade, competência técnica, custos, procedimento e execução.
Antes de redigir a cláusula, importa identificar as partes, o tipo e o valor provável dos litígios, os países envolvidos e onde poderá ser necessário executar a sentença. Depois, avaliar a instituição ou as regras, o número de árbitros, a sede e a língua.
Estas escolhas devem funcionar em conjunto. Uma cláusula adequada a uma operação internacional complexa pode ser excessiva para um contrato de pequeno valor. A possibilidade de negociar ou mediar também pode integrar a estratégia de resolução de conflitos.
Exemplo hipotético
Num contrato de construção com questões técnicas, pode ser relevante escolher árbitros com experiência nesse sector. Num fornecimento de menor valor, pode interessar um procedimento mais simples, preservando sempre as garantias das partes.
Em Moçambique: A análise começa pela Lei n.º 11/99 e pelos regimes especiais aplicáveis. Quando existem elementos internacionais, importa considerar também o capítulo VIII da lei, os regulamentos escolhidos e os instrumentos internacionais pertinentes.
Fontes desta resposta
- Lei n.º 11/99, de 8 de Julho — Arbitragem, Conciliação e Mediação · Artigos 4 a 6, 10, 16 e 52 a 59
- UNCITRAL — Notas sobre a Organização de Processos Arbitrais (2016 e nota adicional de 2023) · Escolhas de organização do procedimento
Leitura complementar
FICHTNER, José Antonio; MANNHEIMER, Sergio Nelson; MONTEIRO, André Luís. Teoria geral da arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2019. Capítulos 1 e 2 como referência doutrinária complementar; a obra centra-se no direito brasileiro.